Os laços da produtora de Dark Horse com Frias, Nunes e Tarcísio


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Por trás do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, está uma mulher bonita, inteligente, fervorosamente cristã e muito bem relacionada. Karina Ferreira da Gama mantém contratos com governos, é recebida em gabinetes de ministérios e prefeituras, e comanda empreendimentos que prometem uma revolução no empreendedorismo cristão. Ela é sócia da empresa Go Up Entertainment, que produziu o filme.

Recebe, ainda, emendas de parlamentares do campo bolsonarista para alavancar as produções cinematográficas através da ONG Academia Nacional de Cultura (ANC), que ela preside. Os R$ 2,6 milhões que recebeu de “emendas PIX” dosdeputados federais Alexandre Ramagem (RJ), Carla Zambelli (SP), Bia Kicis (DF) e Marcos Pollon (MS)estão agora sendo investigados por determinação do Ministro do STF, Flávio Dino. O dinheiro foi enviado em junho de 2024 para o governo paulista de Tarcísio de Freitas e, depois, usado para a produção da série documental Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem. Segundo reportagem do Uol, a Secretaria Estadual de Cultura do governo Tarcísio teve que aprovar o plano da produção para depois assinar um termo de fomento e repassar a verba à produtora. 

Chama a atenção que até então a ANC não tivesse nenhum registro de produções cinematográficas no portfólio.  

Mesmo assim, o valor sob investigação é apenas uma fração dos R$ 134 milhões que Flávio Bolsonaro pediu para o banqueiro-anjo caído Daniel Vorcaro, conforme revelou o site Intercept Brasil, e que, segundo Karina, jamais chegou aos cofres da sua produtora. À coluna da jornalista Andreza Matais, ela afirmou que o apoio de Daniel Vorcaro ao filme “não tem nada que não seja natural e tradicional do mercado audiovisual” e que Flávio buscou outros empresários: “O Flávio ficou muito empenhado em falar com quem conhecesse, com quem pudesse pedir apoio, ajuda”.

Quem são esses empresários? Quem pagou pelo filme que foi planejado para ser uma peça-chave para mobilizar a opinião pública durante o período eleitoral, com previsão de estreia em setembro? 

Para buscar respostas, é preciso entender quem é Karina, com quem ela se relaciona e como conseguiu montar a sua empresa, que tem uma sede em São Paulo, num coworking da Avenida Paulista, e uma em Los Angeles, também em um escritório compartilhado com outras produtoras, podcasts e estúdios.  

Em uma postagem de dezembro de 2019, Karina se descrevia como ex-presidente da Câmara de Comércio do BRICS e ex-vice-presidente da ONG Câmara Interamericana de Cultura e Comércio do Mercosul, mas não há registros dessas participações. 

Na época, ela integrava como suplente o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente/SP, durante a gestão de Bruno Covas.    

Suas relações com a prefeitura e o governo de São Paulo são intensas

Karina é sócia de 3 empresas e diretora de duas organizações sem fins de lucro sediadas na cidade: a Academia Nacional de Cultura (ANC), que recebeu as emendas PIX, e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), que obteve um contrato de R$ 108 milhões da prefeitura de Ricardo Nunes para instalação de 5 mil pontos de Wi-Fi de internet na periferia de São Paulo, embora não tivesse experiência prévia neste tipo de trabalho (o ICB atuava na proteção dos direitos de crianças). O contrato foi revelado pelo The Intercept Brasil e está sob investigação do Ministério Público de São Paulo.  

Já foi um salto enorme em relação ao contrato anterior que o ICB conseguiu com a prefeitura paulistana, em 2018, no valor de R$ 2,5 milhões, para a realização do “encontro literário IDE”, um evento para promover autores cristãos dentro da Expo Cristã no Anhembi. O projeto previa um concurso literário, palestras de coaches para autores e encontros com livreiros. 

Segundo o plano de trabalho enviado pela ONG, aquele era o primeiro contrato com a prefeitura de São Paulo. Trabalhos anteriores com o poder público se resumiam, segundo o documento, a eventos realizados com as prefeituras de Curitiba (PR), Goiânia (GO) e São Roque (SP).   

Portas abertas na prefeitura de Nunes 

Em 2023, já sob a gestão Nunes, a relação se tornou mais próxima. Karina foi recebida pelo menos três vezes na prefeitura. A primeira reunião foi em 22 de fevereiro de 2023, na condição de presidente da Academia Nacional de Cultura (ANC), quando se reuniu com Ricardo Nunes e a secretária de cultura Aline Torres. Naquele mesmo encontro, ela também se apresentou como membro do GT Cristão – organização que atua como lobista de diversas igrejas e negócios evangélicos e parece ter origem no Grupo de Trabalho cristão criado pela campanha de Tarcísio de Freitas para governador estadual em 2022. Segundo a CBN, o GT reunia “pastores, para orientar o candidato e organizar as agendas em igrejas ou eventos religiosos”. O GT organizou um evento de campanha do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em 2022, com a participação de lideranças religiosas e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). 

Depois, em 28 de março de 2024, Karina foi recebida novamente pela secretária Aline Torres, representando a ANC. Desta vez, estava acompanhado pelo secretário da ONG, que também é advogado do Instituto Conhecer Brasil (ICB) – seu marido, Wemerson Marinho dos Santos.   

No último encontro registrado, em 15 de outubro de 2025, Karina se encontrou com Ricardo Nunes, desta vez, como CEO da Connect Faith, seu mais recente projeto, um festival que busca aproximar o empreendedorismo cristão da tecnologia. Na mesma reunião, a Academia Nacional de Cultura (ANC) foi representada por outras pessoas, incluindo Michael Brian Davis, que é sócio de Karina na Go UP Entertainment nos EUA. 

Mike Davis, brasileiro naturalizado norte-americano, parece ser outra peça-chave no filme Dark Horse. Além de representar a ANC em reuniões com o poder público e ser sócio de Karina na Go UP Entertainment, ele é sócio de Wemerson Marinho dos Santos (que aparece também sob o nome de Wemerson Marinho da Gama em diversos registros) na empresa Facterra Ltda, que usa tecnologia para buscar casos de infringimento de direitos autorais.     

Assim como as reuniões, os contratos com a prefeitura também se multiplicaram. Em outubro de 2023, o Instituto Conhecer Brasil (ICB) recebeu outro contrato de R$ 500 mil da prefeitura, desta vez com a Secretaria Municipal de Inovação tecnológica, para realizar o congresso RIEFA, Rumos da inovação na Educação do Futuro Agora, cujo objetivo descrito é “desenvolver a tecnologia para fomentar a cultura e a inclusão de novas tecnologias”. O contrato foi repetido no ano seguinte, com o mesmo valor, e o congresso aconteceu em agosto de 2024 no teatro Rosário NET. O evento aconteceu de novo em 2025 no Mackenzie e teve “parceria” da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, mas não localizei contrato de financiamento.

Portas abertas na secretaria de Cultura de Mário Frias durante o governo bolsonaro

O marido de Karina, Wemerson Marinho dos Santos, é uma companhia constante em reuniões com autoridades. Durante o governo Bolsonaro, ambos foram a reuniões no Ministério do Turismo, onde ficou locada a Secretaria de Cultura comandada por Mário Frias – autor da história original que deu origem ao filme Dark Horse. (Na época, o Minc perdeu status de ministério). 

A dupla participou de reuniões em 21 de fevereiro, 21 de março, 7 de abril e 22 de novembro de 2022. Em algumas, o tema era direito autoral, área de especialidade da empresa de Wamerson com Mike Davis, a Facterra. Nesses encontros, Wemerson às vezes se apresentava como vice-presidente do ICB, às vezes como advogado da American Films, empresa sediada na Flórida que atua com a ferramenta Facterra, que caça violações aos direitos autorais. Segundo um release da empresa,“a Facterra ajuda seus clientes a combater a pirataria digital, identificando e registrando dados associados à violação ilegal de seus conteúdos protegidos por direitos autorais em redes globais BitTorrent, além de gerar e emitir avisos essenciais de acordo com a Lei de Direitos Autorais do Milênio Digital (“DMCA”) ou notificações de infração de direitos autorais.”

No ano seguinte, já como deputado federal, Mário Frias manteve um contrato de prestação de serviço com Wamerson, através da empresa dele, Wemerson Marinho dos Santos Consultoria Empresarial, para a prestação de serviço de licenciamento de tecnologia com a finalidade de disponibilizar o sistema de CRM Político. A nota fiscal disponibilizada pela Câmara do Deputados demonstra ser o valor apenas pelo mês de junho, o que leva a entender que o contrato era mensal.  

O ex-secretário de cultura Mário Frias, enquanto deputado federal, também foi responsável por outros dois convênios via emenda parlamentar assinados em 2024 e que hoje estão sob escrutínio do STF. O Instituto Conhecer Brasil recebeu R$ 1 milhão via Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação numa ação de letramento digital e R$ 1 milhão para implantar o Projeto Lutando Pela Vida no Estado de São Paulo, de artes marciais. Os contratos seguem vigentes. 

Agora, a última empreitada de Karina parece ser o Connect Faith, uma feira de negócios e tecnologia que se descreve como “o maior encontro de inovação, fé, cultura e tecnologia do mundo ecossistema cristão” e diz já ter recebido mais de 30 mil pessoas de público em 3 edições que contaram com a presença de Bispa Sônia, Ana Paulo Valadão e Marcos Feliciano, além do cantor norte-americano gospel Kirk Franklin.  

O evento, que deve acontecer no Anhembi em outubro, também é organizado pela Academia Nacional de Cultura (ANC). 

Na conta de Instagram, a CEO Karina apresenta vários vídeos sobre a feira de negócios. “O Fórum Cristão vai vir com uma característica, a gente vai trazer um pouquinho de negócios para esse fórum”, explica ela sobre a edição de 2025. “A gente vai ter também a participação da SP Negócios, junto com a gente, onde a gente vai falar dos negócios do futuro, de novas tendências de trabalho”. O apoio da SP Negócios, uma agência da Prefeitura responsável por promover investimentos e apoiar a internacionalização de empresas paulistanas, demonstra que a parceria com o governo de Ricardo Nunes segue firme e forte.  

Com trânsito internacional, Karina se colocou como ponto central de um movimento que tem ligações com o empreendedorismo cristão em diferentes partes do mundo. Não à toa, a Academia Nacional de Cultura (ANC) afirma no seu site não ter apenas escritório no Brasil, mas também na Carolina do Norte, nos EUA, em Coimbra, em Portugal, e em Tel Aviv, em Israel, destino constante de viagens e peregrinações de grupos evangélicos. 



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