Da violência ao diálogo: um caminho em construção

Cartaz das frases- uma das atividades do Projeto

Com atividades no Riacho Fundo II e em Sobradinho, o Construindo a Cultura de Paz conclui sua jornada com participação da comunidade escolar.

Por Marcos Linhares

No Riacho Fundo II, um adolescente de 15 anos foi esfaqueado dentro da escola em outubro. Esse caso, só reforça o porquê da criação do “Construindo a Cultura de Paz”. Na quinta-feira, 27 de novembro, será finalizado o projeto na Escola Classe Ruralzinha, uma das unidades de ensino daquela região administrativa. Depois, no sábado (29), será a vez da Escola Classe 10 de Sobradinho concluir sua jornada nessa importante iniciativa. 

Idealizado pelas educadoras e escritoras Débora Bianca e Lair Franca e executado pelo Instituto Latinoamerica por meio de um Termo de Fomento da Secretaria de Educação do DF, o projeto percorreu quatro escolas públicas com oficinas de leitura, hip-hop, narração oral, mediação de conflitos e atividades artísticas voltadas à convivência pacífica dentro do ambiente escolar.

Débora Bianca pontua que o Centro de Ensino Fundamental Queima Lençol (Sobradinho) e a Escola Classe Colônia Agrícola Vicente Pires receberam as primeiras culminâncias da iniciativa.

“Educar pela paz exige continuidade e presença. A paz se aprende com o exemplo. Quando uma criança descobre o poder da palavra bem usada, ela muda a si mesma e muda tudo ao redor”, defende Débora.

Lair Franca reforça que o objetivo não é silenciar conflitos, mas qualificá-los: “Não buscamos silêncio. Buscamos diálogo. A paz não é ausência de conflito, mas saber o que fazer com ele”, explica Lair.

Violência- Os dados recentes reforçam a relevância do projeto. Entre janeiro e julho deste ano, a Polícia Civil registrou 1.349 ocorrências criminais dentro ou próximas às unidades escolares, o equivalente a quase sete episódios por dia. Entre eles, casos graves recentes:  houve registro de pai preso por agressões e ameaças na Asa Sul e, mais recentemente, a agressão a um professor de 53 anos no Guará I.

Além dos episódios físicos, a violência emocional preocupa. Uma pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) mostrou que 76,4% dos professores e 91,7% dos gestores escolares já enfrentaram situações de bullying nas unidades onde atuam. Entre os estudantes que sofrem esse tipo de violência, 38,3% relatam faltar às aulas por medo, vergonha ou sofrimento emocional. O estudo indica ainda que apenas 27,5% das escolas possuem programas permanentes de acolhimento ou mentoria.

Apesar de avanços nos últimos dois anos com a criação da Assessoria Especial de Cultura de Paz (AECP) da Secretaria de Educação e o reforço do Batalhão de Policiamento Escolar (BPEsc), pesquisadores, educadores e gestores concordam que as ações ainda não alcançam todos os casos e que o cenário exige continuidade, presença constante e articulação entre comunidade, escola e políticas públicas.

É nesse contexto que o projeto se estrutura, não como ação pontual, mas como experiência pedagógica de responsabilidade compartilhada.

Para a Chefe da Assessoria Especial da Cultura de Paz nas Escolas do DF, Ana Beatriz Goldstein, o “Construindo a Cultura de Paz” evidenciou como a leitura e as atividades lúdicas podem despertar, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a consciência para uma convivência baseada no respeito, na empatia e na fraternidade. ” Trabalhar esses valores nas escolas é fundamental para formar cidadãos mais sensíveis, colaborativos e capazes de construir relações harmoniosas dentro e fora do ambiente escolar”, revelou Ana Beatriz.

Impacto- A supervisora da Escola Classe Ruralzinha, de Riacho Fundo, Veridiana Dourado, destaca que o impacto das ações já se reflete no comportamento das crianças: “É um projeto muito importante, porque agrega valores e leva a comunidade escolar à reflexão. Através do lúdico conseguimos trabalhar temas urgentes e que nem sempre chegam às crianças de forma acessível”, disse.

Já a supervisora da  Escola Classe Colônia Agrícola Vicente Pires, Cliciane Cordeiro, afirma que a escola ficou muito contente por ter sido contemplada. “Os alunos aprenderam, de forma lúdica e prazerosa, a respeitar, valorizar e conviver melhor com o outro, fortalecendo atitudes de empatia e solidariedade, não só no dia a dia escolar, mas em todos os momentos da vida”, observou.

Pazito – O mascote do projeto, Pazito – um papagaio contador de histórias da paz, acompanha todas as atividades e se tornou símbolo afetivo entre as crianças, aproximando o tema da convivência com leveza e pertencimento.

Com as últimas culminâncias, o projeto encerra sua primeira edição deixando uma mensagem clara: a paz não é um ponto final, mas um caminho coletivo construído com escuta, exemplo e afeto.

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