
Da redação – Jairo Mendonça em ação (à direita) – crédito da foto: Luiza Frazão –
Conhecido nos palcos do Distrito Federal como cantor, compositor e professor, Jairo Mendonça também atua em uma função menos visível para o público, mas estrutural para o andamento dos projetos locais: a produção cultural.
Morador do Gama desde 2000, o músico tocantinense divide seu tempo entre as composições e a resolução de entraves logísticos e técnicos que viabilizam eventos na região. A experiência de quem já gravou um CD de canções inéditas — o “Pentagrama da Vida” —, circulou por festivais e dividiu palco com Geraldo Azevedo em 2010, serve agora de base para entender as demandas logísticas de quem se apresenta.
Nesta entrevista, Mendonça explica as responsabilidades de um produtor, a necessidade de solucionar imprevistos de última hora e relembra a formatação da primeira Feira Cultural do Gama, projeto idealizado em parceria com Paulim de Diolinda.
Notas do Planalto Central: Você tem uma estrada longa como músico, estudou na Escola de Música de Brasília e até dividiu palco com Geraldo Azevedo em 2010. Em que momento o Jairo cantor percebeu que precisava também ser o Jairo produtor cultural?

Jairo Mendonça: Aconteceu por necessidade e observação. Quem roda o Brasil tocando em festivais, como eu fiz, acaba conhecendo o melhor e o pior das estruturas. Muitas vezes eu chegava para tocar e via falhas que prejudicavam não só o som, mas a dignidade do artista. A minha lida como músico me ensinou a ler os bastidores. Eu sei o peso que tem um retorno de áudio ruim ou um camarim improvisado de qualquer jeito. Virar produtor foi uma forma de garantir que, aqui na nossa região, a arte fosse tratada com o respeito e a estrutura que o artista merece.
Notas do Planalto Central: Quem vê o evento pronto, luzes acesas e o som rolando, não imagina o caos que antecede aquilo. Como é essa rotina de ter que resolver qualquer problema novo que aparece na hora?
Jairo Mendonça: Produzir é, essencialmente, ser um solucionador de problemas em tempo real. Sem o produtor, o evento simplesmente não para em pé. A gente lida com o imponderável o tempo todo: é o equipamento que queima na passagem de som, o artista que atrasa, a chuva que ameaça cair no meio da montagem. O público não pode perceber nada disso. O produtor precisa ter sangue frio para achar respostas rápidas para problemas que acabaram de nascer. É desgastante? Muito. Mas quando você resolve aquele imprevisto de última hora e vê a magia acontecendo no palco, a adrenalina compensa o estresse.
Notas do Planalto Central: Um desses momentos onde a produção teve que dar as caras foi na criação da primeira versão da Feira Cultural do Gama. Como foi idealizar isso do zero ao lado do Paulim de Diolinda?
Jairo Mendonça: Foi um marco de ousadia nossa. O Gama sempre foi um celeiro fervilhante de arte, mas a gente precisava de uma vitrine permanente, de um ponto de encontro. Fazer a primeira edição com o Paulim foi um misto de loucura e paixão. O desafio maior de idealizar algo inédito é convencer as pessoas de que vai dar certo, mesmo com poucos recursos. A gente bateu muita cabeça para estruturar o formato, mas o prazer de ver a praça ocupada por artesãos, músicos e a comunidade consumindo o que é nosso não tem preço. Foi ali que muita gente entendeu a força econômica e social da nossa cultura.
Notas do Planalto Central: Suas composições passeiam por Baião, Xote, Samba, Reggae, Jazz e Blues. Essa sua mente plural e focada em um mundo menos desigual também reflete na forma como você monta e pensa os projetos culturais?
Jairo Mendonça: Totalmente. Assim como a minha música não se prende a uma caixinha só, a produção cultural que eu acredito tem que ser diversa e inclusiva. Misturar um baião com jazz é fácil; o difícil é trazer essa diversidade para o acesso à cultura. Quando eu produzo um evento, minha cabeça funciona da mesma forma de quando estou compondo: buscando harmonia entre elementos diferentes. O objetivo final, seja no CD Pentagrama da Vida ou montando um palco no Gama, é o mesmo: criar espaços onde a arte combata as desigualdades e dê voz a quem está à margem.




