Em um país marcado por reconstrução no acesso à cultura, os Pontos de Cultura têm se consolidado como espaços fundamentais de formação artística e cidadã. No Distrito Federal, onde há 198 pontos e pontões reconhecidos, essas iniciativas atuam diretamente na descoberta de talentos, no fortalecimento de identidades e na criação de caminhos possíveis para jovens artistas que, muitas vezes, não se viam nesse lugar.
A trajetória de Matheus Nascimento, do Espaço Inventado, revela como o primeiro contato com um Ponto de Cultura pode ser transformador. “Meu primeiro contato com o espaço foi em uma roda de capoeira que vim participar, fiquei encantado com o local, parecia que tinha atravessado um portal e desde então entrei no grupo de capoeira que treina no espaço, me envolvi cada vez mais com os eventos e pessoas que frequentam o espaço e a Vila Cobra Coral. E de um ponto de encontro, cultura e apoio, hoje, o espaço também virou minha casa”, conta.
A experiência no espaço não se limita à vivência cultural, mas também se desdobra em processos de formação artística e construção de identidade. “Sendo um local de muita vivência, aqui é um ponto de encontro de muitos artistas e consequentemente, vou conhecendo novos trabalhos e possibilidades através do espaço. Também é aqui que venho desenvolvendo o que considero meu trabalho de vida dentro da fotografia, registrando os movimentos e saberes da cultura afro-brasileira”, explica.
Ao mesmo tempo, a fala de Matheus evidencia um dos desafios ainda presentes no setor: a profissionalização na cultura. “Creio que não, até hoje venho ‘tateando’ esse local de profissionalização. É possível ser um profissional da cultura, mas isso não é uma realidade pra todos… no meu caso, ainda transito entre fazer profissionalmente e fazer quando dá, fazer como hobby, fazer pela importância que tem para memória local, ainda estou tentando identificar esse caminho profissional”, afirma.
Mesmo diante dessas complexidades, o papel dos Pontos de Cultura é visto por ele como estruturante. “É necessário ter locais para o fazer artístico, para aprender, para conhecer quem veio antes de você. E os pontos de cultura são meios que permitem a formação e descoberta de novos artistas. Principalmente, a autodescoberta, muitas pessoas não sabem que é possível ganhar dinheiro com cultura, não sabem nem que podem ser artistas”, destaca.

- Foto: Arquivo pessoal
Essa dimensão de descoberta e transformação também aparece na atuação do coletivo Distrito Drag, representado por Ruth Venceremos, produtora cultural e cofundadora. Criado em 2017, o grupo nasce de uma construção coletiva que já se conecta, desde o início, com a rede Cultura Viva. “O Distrito Drag é fruto de uma construção coletiva entre artistas e ativistas do DF. Desde o início, mantemos laços com outros coletivos e Pontos de Cultura, porque acreditamos que fortalecer a cultura passa por construir redes”, afirma.
A arte drag, nesse contexto, se apresenta como uma linguagem potente de transformação social. “Ela provoca reflexões sobre papéis de gênero, sensibiliza e toca em temas importantes. É expressão de luta e resistência da comunidade LGBTQIA+”, explica. Para além da cena artística, o impacto também se dá no território. “Mudamos o imaginário sobre as pessoas LGBT no DF, promovendo capacitação, inserção no mercado cultural e inspirando outras iniciativas”, destaca. Segundo ela, espaços culturais comunitários têm papel central nesse processo. “Espaços culturais comunitários protagonizados por pessoas LGBTQIA+ são fundamentais para incluir e dar visibilidade a corpos dissidentes. Eles já são, em si, espaços de diversidade.”

- Foto: Luís Nova/Correio Braziliense
A valorização das expressões populares também aparece como eixo central das transformações promovidas pelos Pontos de Cultura. É o que destaca Jorge Simas, agente cultural e integrante da Mamãe Taguá, iniciativa ligada à cultura carnavalesca no DF. “O Mamãe Taguá nasceu de um grupo de artistas com atuação na cidade, que queriam marcar um momento, com um grupo carnavalesco de dramaturgia e circense”, explica.
Para ele, os Pontos de Cultura cumprem um papel estratégico na articulação entre comunidade e poder público. “Os pontos de cultura fazem a comunicação da comunidade com o estado, que houve os grupos de arte e possibilita esses grupos de se comunicarem com outras, mantendo uma rede de ações populares”, afirma.
Essa atuação reverbera diretamente no território. “Acabamos por sermos a voz da comunidade para o estado, com as nossas ações artísticas. O reconhecimento da comunidade faz com que possamos representar os anseios desta comunidade no que diz respeito à arte”, destaca. E completa ao falar da importância de espaços nacionais de visibilidade: “Essa visibilidade nos referenda para buscarmos espaço a nível local e nacional.”
Essas trajetórias dialogam com histórias já conhecidas do grande público, como as de Silvero Pereira, que também teve contato com iniciativas culturais de base comunitária em seus percursos. Em comum, essas experiências mostram que a cultura, quando acessível e enraizada nos territórios, pode ser um fator decisivo na transformação de trajetórias individuais e coletivas.
Esse conjunto de histórias e experiências estará reunido na 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, que se consolida como um espaço de encontro, reconhecimento e articulação dessas trajetórias que nascem nos territórios e ganham projeção nacional. Como resume a representante do Distrito Drag: “Eventos como a Teia são essenciais. Eles conectam boas práticas culturais, justiça climática e diversidade, inspirando e fortalecendo transformações em outros territórios.”
Rede Nacional de Cultura Viva
Atualmente, o Brasil conta com mais de 15,5 mil organizações reconhecidas como pontos de cultura, que podem acessar políticas públicas de fomento à cultura.
O Cadastro Nacional de Pontos e Pontões de Cultura é o principal instrumento da Política Nacional de Cultura Viva (PNCV), que há mais de duas décadas fortalece iniciativas culturais comunitárias e amplia o acesso a recursos públicos para ações culturais realizadas nos territórios.
Coordenado pelo Ministério da Cultura, o Cadastro Nacional de Pontos e Pontões de Cultura alcançou organizações reconhecidas em todo o país, presentes nos 26 estados e no Distrito Federal. Entre janeiro de 2023 e março de 2026, foram emitidos mais de 10 mil certificados, um crescimento de 246,5% em relação aos 4.329 certificados concedidos entre 2004 e 2023.
Espalhados por todo o território nacional, os Pontos de Cultura realizam atividades que vão de oficinas artísticas e formação cultural à preservação de festas populares, pesquisas sobre patrimônio cultural e ações de valorização das identidades locais.

- Divulgação
Entre os dias 19 a 24 de maio de 2026, será realizada a 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, maior encontro da rede Cultura Viva no país. A edição acontece em Aracruz (ES), marcando a retomada do evento após 12 anos e, pela primeira vez, em território indígena. Com o tema “Pontos de Cultura pela Justiça Climática”, a Teia reunirá agentes culturais, mestres e mestras das culturas populares, povos e comunidades tradicionais, gestores públicos e representantes da sociedade civil de todas as regiões do Brasil.
O evento é uma realização do Ministério da Cultura, do Governo do Estado do Espírito Santo, da Prefeitura de Aracruz e da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC), em parceria com o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), o Sesc, a TVE, Unesco e o programa IberCultura Viva.




