Coluna Margens e Livros com Marcos Linhares
Em plena Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, no México e no Canadá, talvez a pergunta menos óbvia não seja quem joga melhor, quem corre mais, quem chega mais longe ou quem levanta a taça, mas que tipo de cabeça estamos formando para vestir uma camisa, entrar em campo, suportar a pressão, lidar com a derrota, administrar o dinheiro, entender o próprio corpo, respeitar o adversário, ouvir uma vaia, enfrentar uma entrevista, sobreviver ao fracasso ou ao sucesso?
Entre o campo e o livro?
No Brasil, país que há décadas se apresenta ao mundo como se tivesse inventado o futebol, ainda tratamos as categorias de base como se precisassem escolher cedo demais entre o campo e o livro. Se alguém gosta de estudar, parece que está perdendo tempo de treino. Se joga bem, logo aparece alguém para dizer que escola atrapalha. Se não gosta de estudar, empurram-no para o futebol numa espécie de atalho social sem caderno, biblioteca ou reflexão. O resultado, muitas vezes, é cruel: não se forma nem o leitor, nem o jogador; não se salva a infância, nem se garante a carreira.
A Espanha, que nunca teve a mesma mitologia brasileira em torno da bola, tem feito experiências interessantes justamente nesse ponto em que nós costumamos falhar: o Athletic Club, de Bilbao, mantém há anos uma ponte concreta entre literatura e futebol. A Fundação Athletic organiza o festival Letras y Fútbol, aproxima escritores, jornalistas, artistas, ex-jogadores e jogadores, promove clubes de leitura e leva a conversa para dentro da cultura do clube. Em Lezama, onde se formam os jovens atletas do Athletic, os meninos não são tratados apenas como pernas promissoras, mas também são convidados a ler, a conversar, a perguntar, a entender que o futebol não começa nem termina só no chute.
A beleza da iniciativa está justamente no fato de não transformar a leitura em castigo escolar. O livro entra pelo caminho do afeto e da identificação. O jovem lê uma história de futebol, uma biografia, uma narrativa escrita por jornalista, romancista ou atleta, e depois encontra alguém que pode conversar sobre aquilo.
O autor deixa de ser uma figura distante, escondida atrás da capa e o jogador se mostra não somente com a bola. E a literatura passa a ser experiência compartilhada, como uma partida comentada depois do apito final. Ler, nesse caso, não é sair do futebol, mas entrar nele por outra porta.
Em Barcelona, La Masia também se aproximou de clubes de leitura voltados a entidades esportivas. A presença de figuras como Bojan Krkic, que escreveu sobre sua luta contra a ansiedade, e Jana Fernández, jogadora do futebol feminino, mostra que a conversa não se limita ao desempenho técnico. Fala-se de medo, concentração, viagem, rotina, biografia, imaginação, saúde mental, repertório. Um jovem atleta que lê sobre ansiedade talvez compreenda melhor o que sente antes de uma decisão. Uma jogadora que lê biografias de atletas talvez descubra que a carreira não é linha reta. Um menino que lê uma crônica de futebol talvez perceba que aquele gramado onde pisa contém história, política, classe social, racismo, memória, vaidade, fracasso e linguagem.
Na Alemanha
A Liga Profissional do Futebol da Alemanha, a Bundesliga e os clubes alemães realizam iniciativas muito fortes que integram futebol, literatura e educação, frequentemente estruturadas por meio da DFL Stiftung (Fundação da Bundesliga).
As principais iniciativas integradas ao ecossistema da Bundesliga incluem o Kicken und Lesen (Chutar e Ler). Criado especificamente para enfrentar o desinteresse histórico de jovens garotos pela leitura, o projeto combina treinos de futebol com oficinas de literatura. Clubes como o FC Köln montam turmas onde os meninos pontuam tanto fazendo gols quanto lendo páginas de livros. Ao final do ano letivo, as escolas ou grupos disputam uma taça que premia o equilíbrio entre o desempenho esportivo e as metas de leitura batidas.
Outra bela iniciativa é a Rede Lernort Stadion (O Estádio como Local de Aprendizado). Esta é uma das maiores e mais premiadas iniciativas de educação não formal da Europa, realizada pela Bundesliga em parceria com o governo alemão. Atualmente, ela transforma 34 estádios profissionais do país nas “maiores salas de aula do mundo” em dias em que não há jogos. Voltado para Jovens de origens vulneráveis ou com dificuldades de inserção escolar tradicional, o projeto utiliza a atmosfera do clube, jornalistas, professores e psicólogos para realizar oficinas dentro dos estádios.
Eles debatem literatura esportiva, cidadania, letramento midiático, combate ao preconceito e letramento político. Clubes de massa como o Borussia Dortmund e o Werder Bremen possuem centros fixos para esse projeto.
Fora das quatro linhas, a Alemanha conta com a Deutsche Akademie für Fußballkultur (Academia Alemã para a Cultura Futebolística) uma instituição apoiada pelo ambiente da Bundesliga que premia anualmente o “Livro de Futebol do Ano” (Fußballbuch des Jahres). O prêmio promove ativamente biografias, crônicas jornalísticas e ensaios profundos sobre o esporte, integrando atletas e torcedores no hábito de consumir literatura ligada à sua paixão.
Também vale a pena mencionar o papel das Bibliotecas Itinerantes nos Ônibus das Categorias de Base. Visto que uma característica única das categorias de base europeias são as longas viagens de ônibus nos finais de semana para os jogos da liga juvenil, diversos clubes da Bundesliga promovem a “mala de livros” itinerante. Em vez de passarem cinco horas jogando no celular, os atletas são estimulados por pedagogos a revezar livros de crônicas, romances juvenis e revistas de jornalismo narrativo de futebol (como a famosa revista alemã 11Freunde).
Na Inglaterra, o Premier League Reading Stars
Criado pelo National Literacy Trust em parceria com a liga profissional da Inglaterra (Premier League), o Premier League Reading Stars é um dos maiores e mais antigos programas envolvendo a leitura. A Sabendo que muitas crianças de 9 a 13 anos rejeitam livros mas sabem de cor as estatísticas de seus times, o projeto recruta os próprios jogadores profissionais da elite para gravarem vídeos lendo trechos de seus livros favoritos e recomendando obras.
Com isso, os materiais pedagógicos oficiais das escolas parceiras simulam táticas de futebol para resolver exercícios de interpretação de texto. Dados do programa apontam que mais de 3 em cada 4 crianças que participaram apresentaram melhora drástica nos níveis de leitura.
Já no Brasil…
Enquanto isso, no Brasil, ainda celebramos o improviso como se ele dispensasse formação. O menino bom de bola vira promessa antes de virar cidadão. A família aposta nele como bilhete de loteria. O clube o observa como ativo futuro. O empresário o cerca como mercadoria em gestação. A escola, quando aparece, vira obstáculo burocrático. E a leitura, que poderia ampliar o mundo desse menino, raramente é tratada como parte da preparação esportiva.
Conheci a história de um garoto de escola pública de Ceilândia que, com colegas e professor, venceu uma feira de ciências e chegou a visitar a NASA, nos Estados Unidos. Era o tipo de experiência capaz de reorganizar uma vida inteira. Mas, ao voltar, o pai decidiu tirá-lo da escola porque o menino não jogava bem futebol. A história, pelo que acompanhei, terminou do modo mais brasileiro e mais triste possível: nem o estudo prosperou, nem o futebol se confirmou. Pai e filho ficaram diante de uma frustração fabricada por uma má escolha.
Isso talvez seja uma das nossas maiores derrotas. O futebol não precisa disputar espaço com o livro, ao contrário, precisa dele: O jogador que lê pode continuar driblando, cabeceando, marcando, correndo, mas ganha instrumentos para entender o jogo que o cerca, entende melhor um contrato, desconfia de promessas fáceis, fala melhor de si, lida melhor com a imprensa, reconhece manipulações, aprende a nomear a pressão. Ele enfim descobre que o corpo é carreira, mas a cabeça é para sempre.
A Copa do Mundo de 2026 foi uma oportunidade extraordinária para o Brasil fazer o que quase nunca faz: transformar a comoção futebolística em política cultural. Por que a CBF não organizou ou começa a organizar Feiras do Livro de Futebol para as categorias de base? Por que não criar clubes de leitura nas concentrações? Por que não aproximar jovens jogadores e jogadoras de autores como Eduardo Galeano, Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, José Miguel Wisnik, Mário Filho, João Saldanha, Tostão, Casagrande, além de jornalistas, biógrafos, cronistas e atletas que escreveram ou inspiraram grandes livros? Por que não fazer isso também com as meninas, aproveitando o caminho até a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será no Brasil?
Seria simples e poderoso com cada clube que poderia: escolher livros, realizar encontros mensais. Jogadores profissionais poderiam apadrinhar bibliotecas. Autores poderiam visitar centros de treinamento. Meninos e meninas poderiam ler histórias de quem venceu, mas também de quem perdeu, de quem se lesionou, de quem foi vendido cedo, de quem voltou para casa, de quem descobriu que a vida é maior do que a arquibancada.
A grande revolução estaria em permitir que o jogador ele não fosse reduzido apenas ao talento. Um menino que lê continua podendo ser craque, mas, se não for, não estará condenado ao vazio. E, se for, talvez compreenda melhor a responsabilidade de ser visto
Precisamos aprender a formar quem joga. Esses projetos internacionais mostram que a literatura não precisa competir com o campo; ela pode ser o “técnico invisível” que organiza a mente do jovem. Porque a bola, a carreira, a manchete, tudo passa, mas o menino que aprendeu a ler o mundo talvez não se perca quando as luzes do estádio se apagarem.
Marcos Linhares é jornalista, escritor, professor e biógrafo. Atua há mais de duas décadas na promoção da leitura, políticas do livro e formação de autores. Foi presidente do Sindicato dos Escritores do DF e já coordenou a Feira do Livro de Brasília, projetos literários no DF e iniciativas educativas. É autor premiado nos Estados Unidos. Criou prêmios, programas e ações voltadas ao direito autoral, ao livro e à democratização da literatura.
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