Arquiteta de processos aposta na inteligência artificial sem excessos | ASN Distrito Federal


O mercado de inteligência artificial vive um momento de saturação discursiva. Praticamente todo negócio hoje se apresenta como “movido a IA”, mas poucos param para observar o processo que sustenta essa promessa antes de automatizá-lo. É justamente nesse ponto de atenção que Viviane Farinho, 42 anos, construiu sua trajetória à frente da QMarka, empresa de tecnologia que desenvolve soluções de automação e estruturação de processos com inteligência artificial. O trabalho, ainda em fase de validação, rendeu a ela o primeiro lugar na categoria Ciência e Tecnologia do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios – etapa Distrito Federal, e agora a coloca entre as finalistas da etapa nacional, que acontece em novembro, no Espírito Santo.

“É uma categoria pela qual eu tenho um carinho muito grande. Eu sempre trabalhei em empresas de tecnologia, mas nunca tinha me visto como a pessoa que estaria desenvolvendo uma solução própria nesse mercado. Foi um processo, uma jornada, até eu chegar aqui”, avalia Viviane.

Mais de 20 anos até a inteligência artificial

A trajetória profissional de Viviane não seguiu uma linha reta até a tecnologia, mas foi somando camadas até desaguar nela. Formada em Automação de Processos, com ênfase em marketing, ela também cursou Direito, é advogada inscrita na OAB, e hoje está concluindo simultaneamente duas graduações, em Ciência de Dados e em Inteligência Artificial, previstas para o próximo ano. “Eu não sei nem se posso chamar de transição de carreira, porque eu uso tudo o que aprendi e desenvolvi nesses mais de 20 anos. Vamos somando camadas”, explica.

Foi em 2005 que Viviane ingressou na Caelum, empresa de cursos de tecnologia que, anos depois, deu origem à Alura, uma das maiores plataformas de ensino de programação do Brasil. Como uma das primeiras funcionárias, ela atuou inicialmente na área comercial e administrativa, ajudando a estruturar processos ainda inexistentes na empresa recém-criada. Pouco tempo depois, veio o convite para se mudar para Brasília e assumir uma das unidades da companhia, onde permaneceu por quase nove anos como sócia-diretora, atuando com vendas em diferentes modelos de negócio, entre B2B, B2C e B2G.

Depois desse ciclo, ela viveu dois anos no Canadá, período em que passou a atuar como mentora e consultora para infoprodutores e agências de marketing voltadas a esse mercado, área na qual já acumulava mais alguns anos de experiência. Foi nesse momento que percebeu, quase por acaso, uma habilidade que considerava natural. “Eu falava para as pessoas: você está com esse problema aqui de processo e de dados. E todo mundo respondia: nossa, mas por que isso é tão fácil para você? Foi aí que me toquei de que eu gostava de dados, e que aquilo não era natural para todo mundo”, relembra.

Foto: Focus Produção de Imagem

A partir dessa percepção, Viviane decidiu se aprofundar em Ciência de Dados e, na sequência, em Inteligência Artificial, áreas em que enxergou uma continuidade direta do trabalho que já vinha desenvolvendo havia anos. “Cada empresa, cada processo pelo qual passei, me deu a bagagem para construir a solução que estou desenvolvendo agora e que está sendo premiada”, afirma.

Escalar sem contratar: como funciona a QMarka

A QMarka nasceu da constatação de que, antes de qualquer automação, é preciso compreender profundamente o processo que será automatizado. É esse o princípio que orienta o sistema agêntico desenvolvido por Viviane, batizado internamente ao longo do processo de validação. “Para que serve automação e inteligência artificial? Você automatiza um processo e coloca IA nele. Mas primeiro você precisa olhar para esse processo, entender como ele funciona, para só depois configurar os agentes, os modelos e os prompts que vão sustentar aquilo”, explica.

Na prática, a proposta da QMarka é ajudar empresas a aumentar a produtividade sem a necessidade de ampliar suas equipes. Isso acontece por meio da automação de tarefas repetitivas, da aplicação de inteligência artificial em processos que exigem personalização, e da liberação das equipes para atuar naquilo em que são, de fato, mais produtivas. “Quando eu falo em escalar, é sobre aumentar a produtividade sem precisar contratar. E, ao mesmo tempo, olhar para o time e entender o que pode ser tirado de processos manuais e repetitivos para que as pessoas façam o que realmente importa”, detalha.

Na primeira fase de desenvolvimento, a solução está focada exclusivamente no nicho de infoprodutores, mercado que Viviane já conhece a fundo por sua trajetória anterior. A escolha por um recorte específico é estratégica. Segundo ela, tentar atender a todos os públicos ao mesmo tempo inviabilizaria a personalização necessária para gerar resultados. “Se eu quisesse fazer uma ferramenta para todo mundo, eu não conseguiria. Esse mercado tem dores muito parecidas, usa as mesmas ferramentas, então consigo criar uma solução que realmente automatiza os processos desse nicho”, pondera. A expansão para outros segmentos, segundo ela, deve vir por meio de parcerias com especialistas de cada área, replicando o mesmo modelo de trabalho.

A plataforma, ainda em fase de testes, foi pensada para atender inicialmente a um grupo restrito de 300 clientes, o que garante exclusividade e permite um acompanhamento mais próximo dos processos de cada participante. A expectativa é atingir esse número entre dois e três anos. Atualmente, a solução conta com um cliente-teste, já com resultados mensuráveis, e o lançamento oficial está previsto para o fim deste ano ou o início do próximo.

O diferencial em meio à saturação de IA

Diante de um mercado inundado por ferramentas genéricas que prometem soluções universais em inteligência artificial, Viviane defende que o verdadeiro diferencial está na compreensão do processo antes da tecnologia. “Tem coisas que a IA resolve muito bem, desde que você entenda o processo da empresa. Você configura os passos, os agentes, para que aquilo entregue exatamente o resultado esperado. Sem essa estrutura, você fica só no modelo de chat, conversando, sem uma personalização verdadeira”, avalia.

Foto: Focus Produção de Imagem

Outro ponto de atenção da empreendedora é o modelo de precificação praticado por boa parte do mercado. Segundo ela, é comum que ferramentas comecem com valores acessíveis e, à medida que o uso cresce, o custo dispare, principalmente por conta do markup aplicado sobre o valor cobrado pelas APIs de inteligência artificial utilizadas por trás dessas soluções. “Muitas ferramentas começam baratinhas, mas rapidamente o custo sobe demais, porque elas cobram um markup em cima do valor da API. Eu não quero isso. Na minha solução, o cliente utiliza a própria API dele e eu cobro apenas um valor fixo pelo desenvolvimento personalizado”, explica.

Essa preocupação também orienta um dos objetivos futuros de Viviane, que é estruturar uma frente de pesquisa e desenvolvimento (P&D) dedicada a agentes de inteligência artificial capazes de operar com o mínimo de supervisão humana possível, equilibrando o que ela chama de trade-off entre confiabilidade e custo. “Muita gente coloca IA em tudo porque está na moda, mas não pensa no custo real disso, que às vezes nem compensa financeiramente para o cliente. Nem tudo precisa de IA, tem coisa que só precisa de automação. Eu penso sempre em qual modelo traz o melhor custo-benefício”, afirma.

Já perto dos 40 anos, Viviane enfrentou a resistência de um mercado historicamente dominado por homens. “Eu não sei dizer se foi por ser mulher ou pela questão da idade, mas eu não via oportunidades para isso. Então resolvi criar a minha própria oportunidade”, relembra. Foi assim que, ao propor a um cliente o desenvolvimento de um sistema que nunca havia construído antes, recebeu um retorno que mudaria sua trajetória. “Ele me disse que era ali que eu brilhava, que eu era diferente. A partir daquele momento, fui pegando confiança, e o próximo passo ficou bem mais fácil”, conta.

O reencontro com o Sebrae

A relação de Viviane com o Sebrae não é recente, embora tenha sido retomada apenas há pouco tempo. Ainda em 2005 e 2006, ela participou de cursos oferecidos pela instituição, voltados a empreendedorismo, área financeira e comercial. Nos anos seguintes, envolvida em outras frentes profissionais, perdeu o contato mais próximo com a instituição e não acompanhou sua evolução. A reaproximação aconteceu recentemente, por meio de uma indicação para participar de um processo seletivo da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), o que a levou a redescobrir a dimensão atual do ecossistema de apoio ao empreendedorismo construído pelo Sebrae ao longo dos últimos anos. “Eu não sabia que tinha evoluído tanto. Se soubesse, com certeza eu estaria muito mais próxima”, avalia.

Foto: Focus Produção de Imagem

Hoje, ela planeja se aproximar ainda mais das iniciativas voltadas à tecnologia e à inovação dentro do Sebrae, reconhecendo no prêmio recebido um passo importante nesse reencontro. “Foi muito significativo ganhar esse reconhecimento logo agora, nesse momento de retomada dessa relação. Quero, daqui a um ano, poder dizer que cresci também com essa parceria”, projeta.

Próximos passos

Com o lançamento oficial da plataforma previsto para o fim deste ano ou o início do próximo, os planos de Viviane para a QMarka incluem a estruturação de um time de pesquisa e desenvolvimento dedicado a agentes de inteligência artificial mais autônomos, a expansão para novos nichos de mercado por meio de parcerias com especialistas de cada área, e a internacionalização da solução, processo que já está em conversas preliminares com possíveis parceiros. “Meu objetivo é ter um time especializado em deep tech, pensando sempre em como trazer resultado de forma acessível, sem perder qualidade”, afirma.

Agora classificada para a etapa nacional do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, que acontece em novembro, Viviane encara o reconhecimento como um marco em sua trajetória. “Cada processo pelo qual passei nesses anos todos me trouxe até aqui. Agora é continuar olhando para o que realmente importa, que é resolver o problema do cliente da forma mais simples e acessível possível”, conclui.

Serviço – QMarka

Site: qmarka.ai

E-mail: [email protected]

Contato: (61) 99958-5087



Agência Sebrae DF

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