Coluna Margens e Livros com Marcos Linhares
Entre algoritmos, ansiedade e telas infinitas, o cérebro humano começou a perder uma capacidade antiga: manter a atenção.. Os números sobre declínio cognitivo, ansiedade, depressão e doenças neurodegenerativas cresceram nos últimos anos, especialmente depois da pandemia. O Brasil já convive com cerca de 1,8 milhão de pessoas com demência e a projeção do Ministério da Saúde é de que esse número ultrapasse cinco milhões até 2050.
No meio desses números, a leitura aparece, cada vez mais, associada à preservação da memória, à redução do estresse, ao fortalecimento da atenção e até à desaceleração do envelhecimento cerebral.
Reportagem publicada na sexta-feira passada, 3 de julho, pelo Correio Braziliense, baseada em estudo da University College London, aponta justamente isso. O levantamento concluiu que atividades culturais, como leitura, ida a museus, música, pintura e participação em eventos artísticos, produzem impacto mensurável no envelhecimento biológico.
Os pesquisadores observaram alterações positivas em marcadores celulares ligados ao envelhecimento e ao estresse inflamatório. O dado mais interessante talvez seja outro: os benefícios apareceram em intensidade comparável à de atividades físicas.
A leitura tem uma característica que poucas atividades possuem hoje: ela exige continuidade. O cérebro precisa organizar linguagem, memória, interpretação, imaginação, ritmo e emoção simultaneamente. Enquanto as redes sociais fragmentam o pensamento em estímulos curtos, a leitura longa obriga o cérebro a construir conexão entre ideias, personagens, informações e contextos. É quase um treinamento de resistência mental.
Pesquisas recentes na área de neurologia e envelhecimento vêm associando o hábito contínuo de leitura ao aumento da chamada “reserva cognitiva”, conceito usado para explicar por que algumas pessoas conseguem retardar sintomas de doenças neurodegenerativas mesmo apresentando alterações cerebrais semelhantes às de outros pacientes. Em outras palavras: cérebros mais estimulados parecem encontrar caminhos alternativos para continuar funcionando.
Isso ajuda a explicar por que pessoas que mantêm hábitos intelectuais ativos costumam apresentar declínio cognitivo mais lento. Ler não impede Alzheimer, nenhum cientista sério afirma isso, mas diversos estudos mostram que atividades cognitivamente complexas ajudam o cérebro a resistir melhor ao avanço da perda funcional.
O excesso de estímulos digitais produziu uma geração permanentemente acelerada. O cérebro passou a funcionar em estado de alerta contínuo: notificações, vídeos curtos, múltiplas abas abertas, excesso de informação e consumo compulsivo de conteúdo alteram padrões de atenção e aumentam fadiga mental.
Ler um livro produz justamente o movimento contrário: a frequência cardíaca desacelera, o foco se reorganiza e o cérebro sai do padrão fragmentado de estímulo constante.
Não por acaso, médicos, neurologistas e psiquiatras começaram a discutir com mais seriedade práticas de estimulação cognitiva como parte da prevenção em saúde mental. O relatório da Lancet Commission de 2024 reforça que fatores ligados à atividade intelectual e social têm papel importante na prevenção de demências e no fortalecimento cognitivo ao longo da vida.
Existe ainda um aspecto social que raramente entra no debate: ler amplia o repertório emocional. Pessoas que leem ficção, por exemplo, tendem a desenvolver maior capacidade de empatia e interpretação de emoções complexas. Isso ocorre porque o cérebro acompanha conflitos, intenções e sentimentos de personagens durante longos períodos. Em tempos de radicalização emocional e intolerância crescente, talvez isso também explique parte da importância dos livros.
O problema é que o mundo vive um paradoxo brutal: temos muito acesso à informação e, ao mesmo tempo, enorme dificuldade de concentração, devido a quantidade de telas e pouca leitura profunda. O livro passou a disputar espaço com uma arquitetura digital construída precisamente para interromper o pensamento a cada poucos segundos.
Talvez por isso a leitura virou assunto de saúde pública. Ler antes de dormir, frequentar bibliotecas, participar de clubes de leitura, discutir literatura, manter o cérebro exposto a linguagem complexa e narrativa longa pode parecer simples demais diante de um mundo obcecado por soluções tecnológicas. Mas o cérebro humano ainda responde a coisas antigas: silêncio, atenção, memória, imaginação e linguagem.
Enquanto parte da sociedade busca comprimidos para desacelerar o colapso emocional contemporâneo, a ciência começa a olhar novamente para um objeto antigo, silencioso e subestimado: o livro.
Marcos Linhares é jornalista, escritor, professor e biógrafo. Atua há mais de duas décadas na promoção da leitura, políticas do livro e formação de autores. Foi presidente do Sindicato dos Escritores do DF e já coordenou a Feira do Livro de Brasília, projetos literários no DF e iniciativas educativas. É autor premiado nos Estados Unidos. Criou prêmios, programas e ações voltadas ao direito autoral, ao livro e à democratização da literatura.
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