Há nove anos, estudantes do Educandário Moranguinho, em Guaraí, aprendem que empreender também significa saber planejar, tomar decisões, trabalhar em equipe e entender o destino do dinheiro. A partir do programa Jovens Empreendedores Primeiros Passos (JEPP), desenvolvido pela instituição em parceria com o Sebrae Tocantins, os alunos do 1º ao 5º ano participam de atividades que transformam conceitos de empreendedorismo e educação financeira em experiências práticas dentro do ambiente escolar.
A iniciativa começou em 2016 e, ao longo dos anos, passou a integrar a rotina pedagógica da instituição. Durante o ano letivo, os estudantes participam de aulas semanais que combinam conteúdo teórico e atividades práticas, com experiências que envolvem elaboração de planos de negócios, oficinas, produção de itens e comercialização de produtos e serviços.
Na prática, os alunos vivenciam etapas que fazem parte do dia a dia de um negócio. Eles confeccionam artesanatos, produzem brinquedos com materiais recicláveis, cultivam plantas, trabalham com locação de brinquedos e comercializam alimentos. Ao longo dessas atividades, entram em contato com questões como definição de preços, custos de produção, atendimento ao cliente, organização das vendas e administração dos recursos obtidos.
Na visão do analista do Sebrae Tocantins Itallo Brandão, um dos principais diferenciais do JEPP está justamente na possibilidade de que as crianças compreenderem esses conceitos a partir de situações que exigem participação e tomada de decisão.
“Quando a criança participa de todo o processo, desde pensar no que vai produzir até entender quanto gastou, quanto vendeu e o que pode fazer com o resultado, o aprendizado deixa de ser apenas um conteúdo da sala de aula. Ela começa a perceber a relação entre planejamento, escolha e consequência. É uma experiência que contribui para formar uma postura mais responsável diante do dinheiro e das próprias ideias”, destaca.
Uma das experiências que melhor representa essa proposta ocorre com as turmas do 5º ano. Os estudantes organizam a venda de pipocas e geladinhas na escola e acompanham o processo de comercialização. O lucro é destinado ao financiamento do passeio de despedida da turma, o que faz com que o objetivo financeiro tenha relação direta com uma conquista construída coletivamente.
A experiência permite que os alunos percebam, na prática, que o resultado de uma iniciativa depende das decisões tomadas ao longo do caminho. Para alcançar a meta, é necessário organizar a produção, pensar nas vendas, dividir responsabilidades e acompanhar os recursos arrecadados.
Segundo o gestor, situações como essa também ajudam a ampliar a compreensão dos estudantes sobre o próprio papel dentro de uma atividade coletiva. “O mais interessante é ver que eles começam a entender que não basta vender. Existe uma organização por trás, existe um objetivo e existem escolhas que interferem no resultado. Um aluno pode estar mais envolvido na produção, outro nas vendas, outro na organização, mas todos precisam entender que fazem parte do mesmo processo”, explica.
O trabalho desenvolvido durante o ano letivo culmina nas tradicionais Feiras de Negócios, quando os estudantes apresentam e comercializam os produtos e serviços desenvolvidos nas atividades do JEPP. O momento aproxima a comunidade da escola e permite que as crianças assumam diferentes funções, desde a apresentação dos produtos até o atendimento aos consumidores.
Além de estimular a criação de pequenos negócios, a proposta trabalha competências que podem ser utilizadas em diferentes situações da vida escolar e pessoal. A organização das atividades exige comunicação, cooperação, criatividade e capacidade de resolver problemas, enquanto as experiências financeiras introduzem, de forma adequada à faixa etária, conceitos relacionados a planejamento, custos, receita e uso responsável dos recursos.
A continuidade do projeto por nove anos também permite que o aprendizado seja construído de forma gradual. Ao longo das séries, os estudantes entram em contato com diferentes experiências e ampliam a compreensão sobre empreendedorismo, e passam por atividades mais simples para propostas que envolvem maior autonomia e participação nas decisões.
De acordo com a diretora do Educandário Moranguinho, Laércia, a dinâmica não é tão simples como uma atividade isolada ou uma experiência de venda dentro da escola. Para ela, o objetivo é fazer com que a criança perceba, desde cedo, que uma ideia precisa ser pensada, organizada e colocada em prática para se transformar em resultado.
“Quando o aluno precisa decidir o que produzir, entender os custos, estabelecer um preço e acompanhar o que foi arrecadado, ele começa a compreender que o dinheiro está relacionado às escolhas e às responsabilidades que assumimos. E isso vai muito além de ensinar a empreender: é preparar esse estudante para tomar decisões com mais consciência, entender o valor do próprio trabalho e perceber que ele também pode ser protagonista na construção das suas oportunidades. É esse aprendizado que queremos levar para a vida, independentemente de a criança se tornar ou não um empreendedor no futuro.”, pontua.

