Foi assinado nesta sexta-feira (13), no Rio de Janeiro, um Protocolo de Intenções entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), entidades vinculadas ao Ministério da Cultura (MinC), com vistas à futura celebração de um Termo de Cessão de Uso de uma área localizada nos jardins do Museu da República. O espaço será destinado à ampliação da reserva técnica do Museu de Folclore Edison Carneiro, que integra o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan) e abriga o maior acervo de cultura popular do país.
A assinatura ocorreu durante cerimônia realizada na sede do CNFCP, no bairro do Catete. A programação também incluiu a inauguração de um mural em homenagem ao folclorista Edison Carneiro, realizado pelo Projeto NegroMuro, iniciativa de arte urbana dedicada à valorização da memória negra na paisagem das cidades.
Criado em 1968, o Museu de Folclore Edison Carneiro reúne hoje mais de 20 mil itens relacionados às manifestações culturais populares e tradicionais brasileiras. O acervo cresce continuamente, seja por meio das pesquisas e programas desenvolvidos pelo CNFCP, seja por doações de particulares e instituições.
Na avaliação do diretor do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, Rafael Barros Gomes, a assinatura do protocolo representa um passo importante para garantir condições adequadas de preservação a esse conjunto de referências culturais.
“Agora estamos prestes a assinar um protocolo de intenções, um gesto concreto do Ibram com o Iphan para que possamos viabilizar e entregar ao Brasil um espaço digno para este acervo, que é patrimônio nacional. Esse acervo reúne décadas de pesquisa, de trabalho institucional e de diálogo com as culturas populares brasileiras, e garantir condições adequadas para sua preservação é também reconhecer a importância dessas manifestações na formação da nossa identidade cultural.”
O espaço atualmente destinado à guarda das peças foi criado em 1980 e ampliado em 1987. Com o crescimento do acervo ao longo das décadas, a área tornou-se insuficiente para atender às demandas de conservação e pesquisa. A nova reserva técnica permitirá melhores condições de preservação e ampliará o atendimento a artistas, detentores de saberes, pesquisadores e estudantes.
Rafael Barros Gomes lembrou ainda que a ampliação representa a continuidade de um processo histórico de consolidação institucional do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular.
“Quando Plínio conseguiu, em 1974, o imóvel da Rua do Catete, nº 179, foi depois de muita batalha. Era um pequeno casarão residencial que se tornou o primeiro espaço oficial da instituição depois de quase vinte anos de existência. Mais tarde vieram outras conquistas importantes, como a ampliação do espaço e a criação de áreas dedicadas às exposições e à pesquisa. Desde então, há mais de quatro décadas esta instituição não crescia. Uma instituição precisa crescer para se desenvolver, e é com muito esforço, diálogo institucional e parceria que conseguimos chegar até este momento”.
Na avaliação do presidente do Iphan, Leandro Grass, a iniciativa reforça o compromisso das instituições públicas com a preservação cultural e com o acesso da sociedade ao patrimônio brasileiro. “Entre fazer e não fazer, decidimos fazer. Porque entendemos que a República e a coisa pública precisam estar a serviço do povo. E a cultura popular, como patrimônio público, também precisa cumprir esse papel”.
Segundo ele, preservar e ampliar o acesso a esses acervos fortalece também a própria democracia cultural no país. “Essa reserva só faz sentido se estiver acessível à sociedade brasileira. Esses espaços se conectam porque não há cultura sem democracia, assim como não há democracia sem cultura. Nada do que fazemos tem sentido se não for para o povo, pelo povo e com o povo”, avalia.
Para a presidenta do Ibram, Fernanda Castro, a assinatura do protocolo demonstra o papel do Estado na construção de políticas públicas estruturantes voltadas à preservação da memória cultural brasileira. “Nós somos o Estado brasileiro trabalhando para o povo brasileiro. O que estamos fazendo aqui é justamente fortalecer estruturas e entregar políticas públicas estruturantes para a sociedade”.
Ela ressaltou que iniciativas como essa garantem que as manifestações culturais populares continuem sendo preservadas e transmitidas às próximas gerações. “O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular ter uma reserva técnica significa preservar a memória das manifestações culturais do povo brasileiro. Aquilo que vem do povo deve orientar quem ocupa os cargos públicos e quem constrói políticas públicas”, diz.
De acordo com o diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan, Deyvesson Israel Alves Gusmão, o Centro ocupa um lugar singular no campo das políticas culturais brasileiras.
“O Centro é quase um oásis no meio de toda a burocracia da administração pública. E é um oásis pelas pessoas que trabalham aqui e pela própria matéria de trabalho deste espaço, que é a cultura popular. É aqui que está um dos fundamentos daquilo que podemos chamar de identidade nacional”.
Ele também destacou que o documento firmado representa um compromisso institucional com o futuro da preservação cultural. “O que assinamos aqui hoje não é apenas um protocolo de intenções. É um compromisso institucional entre o Ibram e o Iphan para viabilizar e executar esse projeto, que já está em andamento”, completa.
Homenagem a Edison Carneiro
A programação incluiu ainda a inauguração de um mural em homenagem a Edison Carneiro, intelectual fundamental para os estudos do folclore e das culturas populares no Brasil. A obra foi realizada pelo Projeto NegroMuro, iniciativa criada em 2018 que atua no mapeamento da memória negra por meio da arte urbana.

- Foto: Divulgação
Idealizado pelo muralista Cazé e pelo produtor e pesquisador Pedro Rajão, o projeto já realizou diversas intervenções na cidade do Rio de Janeiro, destacando personagens históricos negros em espaços públicos. O mural inaugurado no terraço do CNFCP é a sexta obra do coletivo instalada em um museu e reforça a conexão entre memória, arte e território.




